A parte de um diagnóstico que costumava consumir a primeira semana inteira de uma equipe de analistas pode ficar pronta numa tarde. O trabalho não encolheu; o que mudou é quem executa a base da pirâmide de consultoria: um time de agentes de IA orientado antes de o projeto começar.
Descrevo aqui a semana zero de um diagnóstico real de estratégia comercial, oito semanas e quatro frentes, cliente anonimizado, para mostrar onde o trabalho sênior de fato começa. Ele começa no briefing do time que executa, não na execução em si.
Da issue tree ao pedido de dados
Antes de qualquer arquivo do cliente chegar, a primeira tarefa foi montar a issue tree do projeto, detalhada até o ponto de definir quais análises cada frente exige e quais dados cada análise precisa. Essa estrutura virou o pedido de dados enviado ao cliente: vinte e quatro itens organizados em quatro blocos.
Montar a árvore é trabalho de julgamento: decidir quais hipóteses o projeto precisa testar e em que ordem. É a parte que não delego. Uma vez definida a estrutura, porém, todo o desdobramento operacional dela deixou de ocupar uma semana de analista.
O gargalo dos dados
Quando os arquivos começaram a chegar, quase cinquenta em formatos diferentes, veio a parte historicamente entregue a quem está começando: conferir tudo contra o que foi pedido, montar roteiros de entrevista, transformar transcrição em ata, mapear quem decide o quê.
Boa parte dos dados vinha embutida em modelos pesados de Power BI. Extraí as bases em CSV via linha de comando para enxergar a matéria-prima por trás dos relatórios: a tabela crua, todos os campos, a granularidade realmente disponível. Sobre isso, uma rotina cruzou os vinte e quatro itens pedidos contra os quase cinquenta arquivos entregues, avaliando não só se o arquivo havia chegado, mas se trazia a granularidade e o histórico que a análise exige. O mapa de preenchimento saiu em minutos: nove itens completos, treze parciais, dois não entregues, dois deles travando frentes inteiras.
O passo que costuma escapar mesmo de um time experiente veio depois. Pedi à mesma rotina que verificasse se cada lacuna apontada já não estava coberta por outro arquivo que o cliente havia enviado. É uma checagem que raramente se faz no arranque, porque costuma aparecer só semanas adiante, quando alguém já está no meio das análises. Feito o cruzamento, a lista de pendências com o cliente caiu de quatorze para nove.
Para onde vai o tempo liberado
O tempo que deixei de gastar abrindo e fechando planilha foi para onde o diagnóstico se decide. Percebi que um mesmo indicador de vendas aparecia com definições diferentes conforme a área que o reportava, e precisava ser reconciliado antes de qualquer análise. Defini a hipótese que cada entrevista precisava testar. Li o negócio por trás dos números.
Foi aí que a lógica da pirâmide virou. A execução que sustentava a base, conferir dado, montar guia, consolidar ata, passou para o time de IA orientado antes do início. A senioridade, que no modelo tradicional toca o trabalho apenas nos pontos de revisão, passou a estar presente desde a primeira hora.
Implicação para gestores
Para quem contrata ou conduz diagnósticos, o deslocamento tem consequência prática: o valor deixa de estar nas horas de analista e passa a estar na qualidade do briefing que estrutura o trabalho. Um time de agentes mal orientado produz volume sem critério; bem orientado, libera o sênior para o julgamento desde o primeiro dia.
A pergunta que se cobra de um projeto também muda. Deixa de ser quantas pessoas estão alocadas e passa a ser se a estrutura de análise foi bem desenhada antes de o primeiro dado entrar, porque é essa estrutura, e não o esforço de execução, que determina se o diagnóstico chega à decisão certa.
A árvore de hipóteses, a leitura do negócio e a reconciliação de definições inconsistentes seguem sendo trabalho humano; a conferência, a extração e a consolidação já não precisam ser.
E a fronteira que fica
Se você conduz projetos por conta própria ou toca operações, a fronteira é a pergunta que fica: quais partes do seu trabalho ganhariam em ser orientadas a um time de agentes na semana zero, e quais precisam continuar saindo do seu próprio julgamento?